A arte influencia a moda. A filosofia influencia a moda. A política, a cultura, as pessoas influenciam a moda. São muitas as áreas que se convergem com a moda para produção de novas coleções. A fotografia, mais do que um mero resultado da moda, também gera inspiração. Foi o que nós brasileiros vimos ontem no início da semana de moda em São Paulo. Vimos o vermelho, o preto, o cru, o verde, o marrom e o amarelo colorindo os tecidos e as texturas.

No início, com aquele vestido de alças feito com franjas de ráfia de seda no corpo de Isabelli Fontana, tivemos a sensação de que não poderia ser um desfile ordinário. Não no desfile de Tufi Duek. Não com as tais franjas tirando a mesmice de uma blusa com gola rolê e de um top.

Apesar de a inspiração vir das fotos de Malick Sidibé, a África estava oculta. Não se ouvia batuques no soundstyling, não se via modelos negras. Mas se via a beleza das sandálias gladiadoras; da lã trançada em vestidos, em saias godês e em ponchos bicolores que, presos por cintos largos, viraram elegantíssimas frentes únicas, ora acompanhada por uma bota 7/8, ora acompanhada por uma calça de boca larga (ou seria pata de elefante?).

Vimos vestidos tubo (e não só) ganharem (questionável) e perderem (sem questões) comprimento. Eis o primeiro vestido de paetês. Entre tecido jacquard texturizado, couro trabalhado, grafismos e estampa de oncinha que dividia o espaço do tecido com bordado colorido, eis que aparece o segundo vestido de paetês.

E o desfile não perdeu o ânimo e continuou cativando, desde o terno com o longo paletó, os ombros à mostra, decotes com cortes diferentes até a aparição de Eduardo Pombal, o estilista da marca, ao final. Foi um desfile rico, fino, elegante. Mas fiquei com a dúvida sobre onde estava Sidibé ali. Em entrevista ao AFF, Eduardo Pombal disse que:

A coleção veio da vontade de fazer algo mais primitivo, mais tribal, que veio desde o final da estação, há um semestre. Não é uma coleção sobre a África ou sobre algum país específico, é um apanhado geral de imagens que eu fui colhendo. Busquei traduzir tais referências de maneira urbana, menos literal; trabalhei bastante com as imagens de um fotógrafo africano do final dos anos 1950/início dos anos 1960, Malick Sidibé, que retratava os jovens e festas locais.

Mas quem é Malick Sidibé? Ele é um fotógrafo maliano que já nos anos 1960 e 1970 cuidava do street style, como forma de documentar, através de suas fotos em preto e branco, os hábitos da juventude local.

The time has come. You are going to school. To the white school.

E foi assim que, nos anos 1940, seu pai o enviou para a escola. Filho de uma decoradora de cabanas africanas, Sadibé era um camponês, que nasceu numa pequena aldeia em Saloba e não tinha contato com o mundo externo, com a arte, mas sabia desenhar. Com o passar do tempo, ganhou notoriedade na escola em que estudava e o diretor o indicou para a escola de artesãos sudaneses. Foi lá que o estudante de design de joias foi contratado pelo fotógrafo francês Gérard Guillat para decorar seu estúdio, de onde Sidibé não saiu mais.

He didn’t teach me how to take photographs. But I watched him and I understood how to take photographs.

Em 1956, comprou uma câmera e aprendeu sozinho como tirar as fotos. Desde então passou a cobrir os eventos africanos: eventos esportivos, idas a praia, casamento de alguém, batismo de alguém. Onde houvesse uma dança, lá estava Sidibé. Como uma geração que estava começando a se libertar do seu passado colonial, os jovens malianos foram remixar códigos tradicionais da África Ocidental com o modo de se vestir parisiense e levar para a noite.

Dois anos depois, ele abriu seu próprio estúdio de fotografia: o Studio Malick. A partir de então, Malick Sidibé também se voltou para os retratos de estúdio. Foi usando os seus conhecimentos em desenho e uma série de adereços e acessórios (transistores, flores, bolsas, pastas e até uma moto), que ele foi capaz de posicionar as pessoas de modo que elas aparentassem certo movimento, podiam fazer de conta que estavam andando de moto ou correndo ou arremessando algo.

O fato é que as fotos de Sidibé, além da realidade do ambiente, denotam a dificuldade em se adaptar a vida na cidade, o desemprego, o uso do álcool, o irresistível desejo de ser como os jovens brancos, mostrando uma cumplicidade entre o fotógrafo e o fotografado.

Eis a representatividade da alta sociedade no desfile de Tufi Duek.


Para mais informações, aqui está a entrevista com Malick Sidibé.
Tufi Duek Fashion Show AI 2014, aqui.
Maliki Sidibé’s work, aqui.
 

[ENGLISH] The art influences the fashion. The philosophy influences the fashion. Politics, culture, people influence the fashion. There are many areas that converge with fashion to generate new collections. The photograph, more than a mere result of the fashion, also is an inspiration. It was what we, brazilians, saw yesterday in the first day of São Paulo Fashion Week. We saw the red, the black, the raw, the green, the brown and the yellow coloring the fabrics and textures.

At the beginning, with a straps dress made ​​with raffia fringes worn by Isabelli Fontana, we had the feeling that wouldn’t be an ordinary fashion show. Not in the Tufi Duek fashion show. Not with such fringes taking the sameness off of a top and of a turtleneck sweater.

Although the inspiration comes from Malick Sidibé’s photography, the Africa that we know was hidden. We couldn’t hear the drumming in the soundstyling, we couldn’t see black models. But we could see the beauty of the gladiator sandals; the braided wool in the dresses, flared skirts and bicolor ponchos, tied in wide belts, that turned in a halterneck, sometime paired with a boot 7/8, sometime paired with an elephant’s foot pants.

We saw tube dresses (and not only) gain a questionable length and lose (no questions) length. And then came the first sequined dress. Among textured jacquard, leather, graphic pattern, leopard print dividing the fabric with a colorful embroidery, came the second sequined dress.

And the show didn’t lose the mood and continued captivating, from the suit with long coat, the bared shoulders, the necklines with different cuts until the appearance of Eduardo Pombal, the designer brand, at the end. It was a rich and elegant fashion show. But I got the doubt where there was the Sidibé’s influence.

In an interview to AFF, Eduardo Pombal said that the collection came from the desire to do something more primitive, more tribal, not a collection about Africa or about some specific country, but an overview of the images taken by the african photographer Malick Sidibé in the late 1950s / early 1960s. His intention was to translate these references in an urban way, less literal.

But who is Malick Sidibé? He is a Malian photographer who in the 1960s and 1970s tended to the street style as a way of documenting, through his black and white photos, the habits of the local youth.

The time has come. You are going to school. To the white school.

And so, in 1940, his father sent him to school. His mother was an African huts decorator. Sadibé was a peasant, who was born in a small village in Saloba and had no contact with the outside world or with art, but he could draw. Over time, he gained notoriety in the school and the main appointed him to the School of Sudanese Craftsmen. It was there that the student of jewelry design was hired by the French photographer Gérard Guillat to decorate his studio, where Sidibé has remained.

He didn’t teach me how to take photographs. But I watched him and I understood how to take photographs.

In 1956, he bought his first amateur camera and taught himself how to take photographs. Since then, he covered the African events: sporting events, the beach, someone’s wedding, someone’s christening. Where there was a dance, there was Sidibé. As a generation that was beginning to break free of its colonial past, young Malians were remixing traditional West African and Parisian dress codes and taking them into the night.

Two years later, he opened his own photography studio: Studio Malick. Since then, Malick Sidibé also turned to the studio portraits. It was using his expertise in drawing and a number of props and accessories (transistors, flowers, handbags, briefcases, and even a motorcycle), he was able to position people so that they looked to be moving, they could pretend they were riding a motorcycle or running or throwing something.

The fact is that the Sidibé’s photos, beyond the reality of the environment, show the difficulty in adapting to life in the city, the unemployment, the alcohol, the irresistible desire to be like young whites. It is a kind of complicity between the photographer and photographed.

So here is the representation of the high society in the Tufi Duek fashion show.


For further information, here is the interview with Malick Sidibé.
Tufi Duek Fashion Show AI 2014, here.
Maliki Sidibé’s work, here.
 

Inté,
Cris.