DE UMA ATIVIDADE DE ENTRETENIMENTO A EVENTUAL PROCESSO – COMO A CADIVEU IRRITOU ATIVISTAS NEGRAS. REALIDADE OU BANALIDADE?

Fatos. Do dia 8 ao dia 11 de setembro do ano passado, aconteceu em São Paulo a feira internacional sobre cabelos, a Beauty Fair 2012. Nela, a marca internacional Cadiveu, especialista em produtos de alisamento, descoloração e tratamento dos cabelos, interagiu com os visitantes de seu estande, de modo que eles podiam tirar fotos usando uma peruca que faz alusão ao cabelo black power e, ao mesmo tempo, segurando um cartaz com os seguintes dizeres: “eu preciso de Cadiveu”. (clique aqui)

Tal marca, que inclusive participa das semanas de moda paulistas, publicou essas fotos na rede social Facebook, o que gerou inconformação imediata de muitas ativistas negras, dentre elas blogueiras, que reclamaram perante o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), não obstante as tentativas da fundadora da Cadiveu, Claudia Alcântara, de se desculpar com a comunidade negra. Eis algumas mensagens de Claudia:

“Quero dizer a vocês que essa brincadeira que nós fazemos é tão divertida e contagiante, que é sucesso no mundo inteiro, em todos os eventos.” “Essa ‘peruca’ é falsa, feita de plástico e não lembra um cabelo humano nem a quilômetros de distância.” “Espero que vocês apreciem a brincadeira e, no próximo evento, passem no nosso estande para rir junto conosco! Vamos te esperar de braços abertos!!!”

“Pessoal, respeito a opinião de todos! E peço desculpas do fundo do meu coraçao se ofendi alguém. Essa não foi a minha intenção. Nós simplesmente (por um erro de falta de análises) não ligamos essa brincadeira a uma atitude preconceituosa. Sinto muito por isso e segue meu pedido de desculpas. Como acham que poderia me retratar? Gostaria de deixar voces felizes e quero saber como! Vou aceitar as sugestoes que forem sensatas!” (esta mensagem foi publicada junto a uma imagem com os dizerem: amamos black power)

“Nossa linha de produtos é extensa e procuramos sempre atingir todos os públicos. Prova disso, é que temos entre nossos produtos uma linha chamada Bossa Nova, desenvolvida especialmente para quem tem cabelos cacheados. Queria reforçar que a Cadiveu é uma empresa 100% brasileira, que respeita a diversidade do nosso país, em todos os sentidos.”

A Cadiveu, inclusive, lançou no dia 16 de janeiro deste ano uma página no Facebook convidando todas as “meninas felizes com seus cabelos que assumam os cachos” a postarem vídeos “ensinando as mulheres a cuidarem dos cachos”. Contudo, a campanha contra o consumo do produto desta empresa é crescente, possuindo até mesmo o tumblr Não Preciso de Cadiveu com diversas fotos de meninas com o cabelo black power.

Mama Bush: (Your Love Keeps Lifting Me) Higher and Higher. Mickalene Thomas. 2009.

Mama Bush: (Your Love Keeps Lifting Me) Higher and Higher. Mickalene Thomas. 2009.

Bem, é hora de um pequeno blow-up¹ da questão. Ahhh, por onde eu começo? Pelas sábias palavras de minha mãe: ativistas calorosas, “vão lavar um tanque de roupa”? Não, talvez isto me excomungaria da irmandade black power. Posso começar a criticar ainda mais a sociedade pelas brincadeiras indesejáveis feitas pela rua em decorrência deste incidente? Pode ser, mas não agora. Então, vou ter que concordar com as ativistas calorosas e começar a criticar a fundadora da Cadiveu pela brincadeira de mal gosto realizada na feira, por tentar me dizer que cabelos crespos são um problema a ser resolvido. Não tem jeito. Enfim, algumas vezes o que nos magoa numa discussão não é O QUE é dito, mas COMO é dito. E é exatamente o que está acontecendo aqui. De fato, a finalidade de um alisante de cabelo não é alisar cabelos lisos, mas sim qualquer outro tipo de cabelo, incluindo o meu.  Particularmente falando, Dizer que o meu cabelo precisa ser alisado é tratá-lo como um problema a ser resolvido. Aquele cartaz pode, sim, ofender dentro do contexto em que se apresentou.

Mas, olhem só, não importa o que estivesse escrito ali no bendito cartaz da Cadiveu, porque sempre teria alguém para dizer que a marca foi racista! E agora está chovendo ofensas gratuitas e desnecessárias. A pretexto de alegação de racismo, a página da Facebook da marca está sendo bombardeada com mensagens mal educadas que chegam até a criticar a forma com que a fundadora escreveu. Precisamos realmente disto? Ser mal-educado se justifica no fato de que alguém foi mal educado antes? É isso o que vem acontecendo de uns tempos para cá com os movimentos negros que, por vezes, despejam discussões e acusações exacerbadas. Como consequência, as marcas vão ignorar ainda mais os negros na qualidade de consumidores perante a mídia. Não, não estou dizendo que gostei da prática da marca Cadiveu, só estou dizendo que estamos muito próximos da linha limítrofe entre a seriedade e a banalidade. Questões de relevância para a comunidade negra se mesclam a ninharia. Lembro-me bem, já há algum tempo, do programa do Serginho Groisman especial para o dia de Zumbi do Palmares, onde negros debatiam algumas situações sociais até que alguém levantou uma questão e, em poucos segundos, todos se envolveram na “grande discussão” acalorada se deveríamos ser chamados de negros ou pretos…

What? Não é mais importante debater até cansar sobre as cotas para negros nas universidades públicas? Não é importante dizer que, se quiserem criticar algo, que critiquem primeiro o sistema falho de educação no nosso país para depois abrir a boca sobre tais cotas? Não é melhor indagar onde a Vogue escondeu os modelos negros e os produtos para os negros? E não, não estou falando em criar uma Vogue Black só para sentir que o “problema” foi resolvido (aliás, precisou Joan Smalls ser eleita a número 1 do mundo para termos um black issue brasileira? BRASILEIRA?!). Não seria bom aproveitar o ensejo e pleitear por mais “Helenas” negras nas telenovelas? Por que não conversar mais sobre o que nós mesmos podemos fazer um pelo outro? Um programa de televisão renomado abriu oportunidade para os negros falarem e eles focaram na indagação “preto- negro”, sendo certo que, quando um racista quer ofender um negro/preto, assim o fará, não importa de que jeito, podendo transformar a mais doce palavra em fel! Então, pretinha ou neguinha, tanto faz! Só não me chamem de morena ou digam que o meu cabelo PRECISA ser alisado.

Sandra: She’s a Beauty. Mickalene Thomas. 2009

Sandra: She’s a Beauty. Mickalene Thomas. 2009

FROM AN ACTIVITY OF ENTERTAINMENT TO A POSSIBLE LAW CASE – HOW CADIVEU IRRITATED THE BLACK ACTIVISTS. REALITY OR BANALITY?

Facts. In the last year, in September, from the 8th to the 11th, there was in São Paulo – Brazil the international hair fair, the Beauty Fair 2012. In this fair, the international brand Cadiveu, specialist in straightening and hair care products, interacted with the visitors of her booth, so they could take pictures wearing a wig that alluded to the black power hair while holding a poster with the following words: “I need Cadiveu”. (click here)

This brand, which also participates in São Paulo fashion weeks, has published these photos on the social network Facebook, which generated immediate disapproval of the many black activists, among them bloggers, who offered some formal complaints to the National Council for Advertising Self-Regulation, despite the attempts of the Cadiveu’s CEO, Claudia Alcantara, to get apologized with the black community. Here are some messages from Claudia:

“I want to tell you that this game that we do is so much funny and contagious, that is success in the whole world, at all events”. “This ‘wig’ is false, made ​​of plastic and do not remember a human hair, nor from miles away”. “I hope you enjoy the game and, in the next event, pass on our booth to laugh along with us! We’ll wait for you with open arms!”

“Folks, I respect everyone’s opinion! And I apologize from the bottom of my heart if I offended anyone. That was not my intention. We simply (for an error in lack of analysis) didn’t link this game to a prejudiced attitude. Sorry about that and follow my apology. How do you think I could portray me? I want to make you guys happy and I want to know how! I’ll accept suggestions that are sensible!” (This post was published along with a picture saying “we love black power”).

“Our product line is extensive and always try to reach all audiences. Proof of this is that we have, among our products, the line called Bossa Nova, designed especially for those who have curly hair. I wanted to reinforce that Cadiveu is a 100% Brazilian company that respects the diversity of our country, in every sense”.

The Cadiveu even launched on January, 16th a Facebook page inviting all “happy girls with their curly hair who assume their curls” to post videos “teaching the women to take care of the curls”. However, the campaign against the consumption of the Cadiveu products is growing, possessing even the tumblr Eu não preciso de Cadiveu (I don’t need Cadiveu) with many pictures of girls with black power hair.

Well, it’s time for a small blow-up¹ of what matters. Ahhh, where do I start? For the wise words of my mother: black activists, go to wash some clothes? Nothing “better” than a sexiest sentencem but no, because maybe this would defrock me from black power brotherhood. Can I start criticizing even more rge society for the undesirable jokes made ​​by the street as a result of this incident? Maybe, but not now. So, I have to agree with the activists and start to criticize the Cadiveu’s CEO for the bad taste game held on the fair that tried to tell me that my curly hair is a problem to be solved. No way. Anyway, sometimes what it hurts us in a discussion is not WHAT is said but HOW it is said. And that’s exactly what’s happening here. In fact, the purpose of a hair straightening is not to smooth straight hair, but any other type of hair, including mine. Particularly speaking, Say that my hair needs to be straightened is to treat it as a problem to be solved. That poster can really offend  within the context in which it appeared.

But, wait a moment, no matter what was written by Cadiveu in that blessed poster, because it would exist always someone to say that the brand was racist! And now it’s raining unnecessary and free insults. The pretext of the alleged racism, the brand’s Facebook page is being bombarded with poorly educated messages that even criticize the way the founder write the texts. Do we really need this? Being rude is justified in the fact that someone was rude before? That’s what has been happening for some time with the black movements that sometimes come out with exacerbated discussions and accusations. As a result, the brands will ignore further the black persons as consumers in the media. No, I’m not saying that I liked the Cadiveu’s game, I’m just saying that we are very close to the boundary line between seriousness and banality. Relevant issues to the black community mingle with pittance. I well remember, some time ago, in the Serginho Groisman’s program (special for the Zumbi of Palmares day, so all the guests were black), all were debating some social situations until someone raised a question and, within seconds, all got involved in the “great debate” if we should be called ‘negro’ or ‘preto’…

What? This difference between these words even exists in English, the two words mean ‘black’! Is it not more important to discuss about the quotas for black persons in public universities? Is it not more important to say that if somebody wants to criticize something about the quotas, first of all must to criticize the flawed system of education in our country and then open the mouth about such quotas? Is it not better to ask where Vogue hid the black models and products for the blacks? And no, I’m not talking about creating a Black Vogue just to feel that the “problem” was solved (by the way, Joan Smalls had to be the number 1 in the world to have a Brazilian black issue? BRAZILIAN?).Would not it be good to take this opportunity and plead for more black characters in the soap operas and films? Why not talk more about what we cab do for ourselves and for the other? A renowned television program opened an opportunity for the blacks speak and they focused on the question “preto-negro”. Folks, when a racist wants to offend a black person, he will do in anyway. turning the sweetest word in the gall! So ‘pretinha’ or ‘neguinha’, whatever! Just do not call me a brunette or say that my hair MUST be smoothed.

– Cristiane Santos.