[PORTUGUESE]

                    Soundstyling atrativo, roupas que combinam entre si propositalmente dispostas uma perto da outra, araras estrategicamente harmoniosas com o ambiente, jogos de luzes, odor agradável e… A implantação da cultura do desespero, uma vez que se você não levar aquela saia de paetês na cor ouro rosa que combina com aqueles teus sapatos novos recentemente adquiridos e com aquela tua camisa vintage que está apenas esperando a oportunidade certa para ser usada VOCÊ NÃO A ENCONTRARÁ MAIS! Uma solução, um problema… O que realmente é este sistema fast fashion? Como se consegue criar e manter esta cultura “fast”?

 

[ENGLISH]

                    Attractive soundstyling, clothes that fit together purposely arranged close to each other, racks strategically  harmonious with the environment, lights, pleasant smell and… The deployment of the culture of despair, because if you do not take that sequined skirt in rose gold color that matches with your new shoes recently acquired and with that your vintage shirt waiting for the right opportunity to be worn YOU’LL NOT FIND IT ANYMORE! A solution, a problem … What really is this fast fashion system? How to create and maintain this “fast” culture?

 

[PORTUGUESE]

                    Quando eu estava no Tribunal do Trabalho na semana passada, vi uma mulher com um sapatinho vermelho lindo que, apesar da cor, não conseguiu chamar tanto a atenção quanto o símbolo da marca na frente do sapato. Gente, juro que foi difícil não rir daquele monstro colado em cima de algo tão delicado! Foi desnecessário, hein Capodarte! Mas  isto foi só um desabafo, vamos ao que interessa!

                    Dentre todas as coisas que li sobre o sistema fast fashion, ficaram algumas perguntas: como um sistema, que deixa para produzir suas roupas tão tardiamente só para ter o tempo de identificar as tendências que são bem acolhidas pelo público, consegue confeccioná-las a tempo de comercializar antes que tal tendência se esvaia? Como encomendar as roupas e recebê-las do fornecedor de forma tão rápida? Como resolver o problema de repor um produto diferente do original, com a cor ou o tamanho ou o tecido diferente para assim atender melhor as expectativas do público? Estão percebendo onde quero chegar? Será que já dá para perceber que vou falar das condições de trabalho análogas a escravidão? Será que alguém pode matar a advogada que há em mim? Vejamos.

                    Sempre quando vamos a uma “loja fast fashion”, uma coisa é certa: ninguém está certo de encontrar aquela roupa novamente se não a levar imediatamente. Isto porque, geralmente, a reposição dos produtos são feitas todas as semanas, levando os clientes a visitar a loja mais vezes para conhecer as novidades. É mais ou menos assim: produtos novos, clientes curiosos, mais vezes as produtos são repostos, maior o fluxo de clientes, mais vezes eles compram, mais necessidade de repor produtos, maior fluxo de clientes, mais compras… Um ciclo que não tem fim!!!! Sem deixar de mencionar que a qualidade dos produtos é baixa, portanto o ciclo de vida dos mesmos é curto, o que significa dizer que em pouco tempo estaremos voltando a uma loja porque o salto do nosso sapato se soltou no meio da rua!!! #issoéfato! E quem proporciona esta condição de dispor os produtos para a venda rapidamente  são os fornecedores, que se deixam levar por aquilo que é chamado de quick-response system (movimento de resposta rápida): “ei fornecedor, se você se organizar aí de modo a ser rápido o suficiente para atender o prazo de entrega insano que eu te proponho, eu vou te recompensar; mas se você atrasar, vou te punir, hein”! Não, não estou dizendo que os fornecedores são culpados, até mesmo porque se um fornecedor não aceita esta parceria com uma loja, ficará sem trabalho! E qual seria a solução? Rezar para que os grandes empresários da rede fast fashion se sensibilizassem e fizessem pedidos para ter produtos no estoque também, assim eles teriam condições de repor um produto quando necessário? Are you out of your mind? Siete matti? Por que os empresários estocariam produtos? E se eles, coitadinhos, não conseguissem vendê-los? Empurrariam os produtos para países de terceiro mundo para ingressar na “nova coleção local”? #issoétãozarabrasil Não, este risco deve ser evitado! Então, é melhor ter fazer parceria com fornecedores, que produzirão lotes pequenos de cada produto por vez. Se e quando aquele lote acabar e quando precisar de mais daquele produto, seja do mesmo modelo ou com pequenas alterações do original, mais uma vez o fornecedor entrará em ação. Uma empresa fast fashion de sucesso é aquela que disponibiliza o produto certo, no tempo certo e com preço acessível, por isso sempre procura um fornecedor que tenha a capacidade de suprir a demanda, diminuindo os custos e o tempo de atendimento.

                    Com tamanha responsabilidade, os fornecedores se utilizam de subterfúgios para conseguir produzir o pedido dentr do prazo estipulado, tais como: a exploração de trabalhadores de países em desenvolvimento ou a contratação de trabalhadores temporários, oferecendo condições subumanas de trabalho. Vocês gostam de ler? Tem gente que diz ler até bula de remédio, eu gosto de dizer que leio até a etiqueta da minha roupa. E olhem só, a minha roupa veio da Índia! Mas também tenho roupas da China, de Marrocos, do Vietnam, isto é, países em que a capacidade de produção é alta (= trabalhadores são submetidos a horas incessantes de trabalho) e possui baixo custo de mão de obra (= os trabalhadores não recebem quase nada). Assim, o preço de produção não precisaria ser repassado para o preço do produto final (sic). Mas vocês podem dizer o seguinte: “Cri, há empresas no mercado que tem fornecedores próximos a sua sede. Afinal, encontramos produtos ‘made em Brazil’ vendidos em lojas brasileiras também, não é”?! SIM, contudo, ainda que fornecedores e empresas compartilhem o mesmo país, ainda que isto implique na economia de impostos e taxas, ainda que a mão de obra local seja um pouco mais cara, permanece a corrida contra o tempo! E o pior, permanece a exploração de trabalhadores que, por vezes, não são nem brasileiros, são imigrantes clandestinos (incluindo crianças) contratados ilegalmente para trabalhar em oficinas em condições degradantes, com jornadas de trabalho de até 16h diárias, tendo sua liberdade cerceada, costurando de dia num quarto e dormindo no outro à noite, podendo sair somente com a permissão do dono da oficina e ganhando menos de R$ 500,00. Nossa, o soundstyling já não me parece mais tão atrativo, mas o meu suéter continua sendo da Zara. Será que vou aprender um dia?

Fim.

 

[ENGLISH]

                    When I was in the Labour Court last week, I saw a woman with a gorgeous red shoes that, despite the color, it could not draw as much attention as the trademark symbol in front of the shoe. Folks, I swear it was hard not to laugh at that monster stuck on something so delicate! It was unnecessary, huh Capodarte! But this was just a rant, let’s to business!

                    Of all the things I read about the fast fashion system, some questions remained: how can a system, which produces all the clothes so late just to take the time to identify some trends that are welcomed by the public, manufacture such clothes in time to sell them before the trend fades? How to order the clothes and receive them from the supplier so quickly? How to solve the problem of replacing a product different from the original, with a different color or size or fabric so as to better meet the people’s expectations? Are you realizing what is my point? Can you already see that I am going to speaki of working conditions analogous to slavery? Can anyone kill the lawyer in me? Let’s see.

                    Whenever we go to a “fast fashion store”, one thing is certain: no one is sure to find those clothes again, if we not buy them immediately. This is because, generally, the products are replaced every week, leading the customers to visit the store more often just to check what’s new. It is something like: new product, curious customers, more often the products are replaced, the greater the flow of customers, they buy more, more need to replace products, increased flow of customers, more shopping … A cycle that has no end!!!! And we can’t forget that the product quality is low, so the life cycle of these is short, which means that soon we will be returning to a store because the heel of our shoe came loose in the street! #thisisreal! And who provides this condition to have products to sell quickly are the suppliers, who are governed by what is called a quick-response system. I explain, it is something like that: “Hey supplier, if you organize yourself to be fast enough to attend the insane deadline that I propose, I will reward you; but if you delay, I will punish you, huh!” No, I’m not saying that the suppliers are guilty, because even if a supplier does not accept this kind of partnership with a shop, he will lose the work! And what is the solution? Pray to the big bosses of the fast fashion network raise awareness and begin to have products in stock too, so they would be able to replace a product when needed? Are you out of your mind? Siete matti? Why would the entrepreneurs stock the goods? And if they, poor things, could not sell them all? Would they push the remaining products to the stores in the third world countries as “new collection” from there? # thisissozarabrasil! No, this risk should be avoided! So it’s better to have partnership with a supplier who will produce small batches of each product at a time. When the batch will runs out and when it’ll need more of that product, in the same model or with minor changes from the original, once again the supplier will manufacture another batch. A successful fast fashion company is one that offers the right product at the right time with affordable price, because of it, a company always looks for a supplier that has the capacity to meet the demand, reducing costs and the service time.

                    With such responsibility, the suppliers use subterfuge to produce what the companies ask  within the stipulated period, such as: the exploitation of workers in developing countries or the hiring of temporary workers, offering sub-human conditions of work. Do you like reading? Some people use to read even a remedy labeling, I like to say that I read even the label on my clothes. And just look, my shirt came from India! But I also have clothing from China, Morocco, Vietnam, ie, countries where the production capacity is high (= the workers are subjected to endless hours of work) and has low cost of labor (= the workers do not receive almost nothing). Thus, the price of production need not be passed on to the final product price, right? (sic). But you can say: “Cri, there are companies in the market which has its nearby suppliers. After all, we can find, for example, ‘made in Brazil’ products sold in stores across brazilian shops too, isn’t it”?! YES, however, even if suppliers and companies share the same country, even if it means saving on taxes, even if the local labor is a bit more expensive, remains the ‘race against time’! And worse, it remains the exploitation of workers who sometimes illegal immigrants (including children) hired illegally to work in degrading conditions in workshops, with workloads of up to 16h daily, having their freedom curtailed, sewing all day long and going to sleep in the next room, going out only with the permission of the workshop’s owner and earning less than R$ 500,00. Wow, the soundstyling no longer looks so attractive, but my sweater still is from Zara. Will I learn the lesson one day?

The End.

 

♣ EU VESTI / I WORE: Sweater: Zara (here and here); Skirt: Riachuelo (here); Hat: Zara; Shoes: Santa Lolla (here); Belt: Louis Vuitton (here); Tights: Calzedonia; Necklace: Riachuelo; Bag: ?

 ♣ CANÇÃO / SONG: One Silver Dollar – Marilyn Monroe

 ♣ LOCAL / PLACE: Quinta da Boa Vista. Rio de Janeiro – RJ

 

Vista da quinta com o Paço de São Cristóvão por volta de 1820, antes da reforma neoclássica. O edifício tinha um único torreão. O portão em frente ao paço encontra-se atualmente na entrada do Jardim Zoológico da Quinta.

Parque da Quinta da Boa Vista em 1947.

Em 1974.

– Cri.