“Naquela noite, ela chegou em casa e tentou se convencer de que estava mais cansada do que faminta. Tomou o seu banho, sentiu fome, estudou, sentiu fome, assistiu tv, sentiu fome, sentiu o cheiro da comida… Mas foi se deitar com fome. Foi assim que o seu corpo não resistiu e a acordou de madrugada. Como um sonho faminto, seus passos sonâmbulos a levaram em direção aquele pedaço de alegria caseira macia e saborosa. Suas mãos tremiam, porém ela conseguiu conduzir aquela fatia de bolo até a boca, que esperava salivante por aquele deleite. Quando seus dentes cerraram e a sua língua finalmente tateou aquele gosto, foi como sentir a felicidade de uma criança quando recebe um brinquedo cheio de novas funções, foi como ver o por-do-sol no Arpoador, foi como sentir o vento refrescante na pele em um dia de sol. Enquanto ela sentia toda essa doce luxúria que descia pelo seu corpo, não percebeu o quão fácil foi chegar no terceiro pedaço de satisfação. Porém, foi exatamente esta satisfação que trouxe a culpa e foi a culpa que trouxe a tristeza, que por sua vez trouxe o desespero, que exaltou a sua grande preocupação em ser aceita (ou continuar sendo aceita… tanto faz). E foi no ápice de todo este transtorno, que o quarto pedaço que ela levou a boca foi o seu dedo.

Ali, naquele banheiro, vomitando a ‘felicidade’, ela deixou espaço para outros sentimentos, que a preencheram e a induziram a um abismo solitário e profundo de grande dor. Dia após dia, atitudes como esta se tornaram cada vez mais constantes e se aliaram a outras como sujar o prato de comida para fingir para os pais que tinha comido…

Ela… El… eu… EU maltratei o meu corpo, por me ver distorcidamente no espelho a minha própria imagem. As minhas atitudes pioraram, porém eram válidas na minha cabeça por ser em nome da beleza. Mas, droga, mesmo assim me sentia tão feia por dentro!

(…)

Não consigo me lembrar quando isso acabou, não consigo me lembrar quando meu sorriso deixou de esconder a escuridão que eu guardava… Não consigo! Mas fico feliz, meu diário, por ter superado a doença antes que ela me superasse.”

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